O nascimento da pequena Iara marcou um momento histórico na rede estadual de saúde da Paraíba. Ela é a primeira bebê gerada por um homem trans no sistema público do estado. Filha de Daniel Valentim e de Gisele Castro, uma mulher trans, a criança é fruto de uma gravidez planejada e acompanhada de perto pelo casal.
No dia do Orgulho LGBT, comemorado neste domingo (28), Gisele falou sobre a chegada da filha, o significado desse momento e os desafios do casal transsexual.
Moradores da cidade de Esperança, Daniel e Gisele começaram a fazer o pré-natal em Campina Grande. A gestação foi classificada como de alto risco logo no primeiro mês, após Daniel ser diagnosticado com trombose, uma alteração sanguínea comum em gestantes. O casal também recebia assistência do ambulatório para pessoas transexuais vinculado ao Hospital de Trauma de Campina Grande.
Apesar do acompanhamento, Daniel Valentim sentia desconforto e medo do preconceito por ser o primeiro homem trans gestante na unidade. A insegurança aumentou ao ser informado de que a obstetra responsável pelo pré-natal não realizaria o parto, que ficaria a cargo do médico plantonista do dia.
A busca por um ambiente mais seguro levou o casal a pesquisar outras opções. Eles descobriram que o Hospital da Mulher, em João Pessoa, realiza cirurgias de mastectomia em homens trans, encaminhados pelo Espaço LGBT Clementino Fraga. Isso indicava que os profissionais da unidade já eram treinados para o acolhimento desse público. O depoimento positivo de uma amiga referendou a escolha pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano.
Com a ajuda do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, o casal conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação. O médico responsável avaliou os exames feitos em Campina Grande, constatou que a saúde de Daniel estava em ordem e confirmou que a unidade estava apta a recebê-lo de forma adequada.
A decisão se mostrou acertada. Segundo Gisele, a expectativa não decepcionou, e a experiência no Hospital da Mulher foi acolhedora e livre de preconceitos por parte de toda a equipe.
Para o casal, a chegada de Iara é a prova de uma união de sucesso. Eles destacam que o nascimento da criança é um ato divino e que a família é um espaço sagrado, construído com base no afeto e no respeito mútuo.
G1 PB
